terça-feira, 13 de novembro de 2007

Notas em um diário



Ela despertou de susto, ofegante e com olhos de surpresa.
O sonho é um complexo quebra-cabeças formado por peças tão frágeis que a leve brisa do despertar é capaz de transformar em nada – e o despertar dela foi um furacão. Precisava anotar, avançou em seu diário e escreveu compulsivamente.
Aquela sensação que se tem ao deitar-se na grama e observar o céu numa noite estrelada – toda aquela vertigem e a nítida impressão de ser parte de algo maior, incontrolável e misterioso -, tudo isso representou uma constante em sua vida durante toda a infância e início de adolescência.
Tinha certeza de que hoje era um dia importante. Sua mãe anunciara que precisava contar-lhe algo, um segredo que somente agora, com toda a maturidade de seus quatroze anos de idade, poderia compreender. As duas aguardavam apenas a chegada do pai e, empurrado pelos minutos nervosos do relógio, o tempo se arrastava. Era estranho, mas ela tinha certeza de que aquilo que os dois tinham a lhe falar não seria nenhuma surpresa e, realmente, não foi.
Sempre sentiu-se um tanto quanto alheia, como se aquele não fosse realmente o seu lugar e sua estadia alí estivesse mais ligada a uma necessidade de sobrevivência do que ao afeto de um lar. Não que seus pais adotivos lhe tivessem negado o amor que os genitores devotam a um filho legítimo, mas a vertigem do céu estrelado não mentia e era implacável.
O homem, que tomara conta dela até o presente, era amigo íntimo de seu pai - os dois fizeram parte de uma mesma equipe. Ao começar a ouvir o segredo, ela fechou os olhos e resgatou, com toda sua vontade, a sua memória mais antiga, lembrou de um homem de estatura mediana (seu pai talvez), havia também uma maleta e um relógio. A pouca idade que tinha na época do incidente a poupou de maiores nuances daquele dia trágico. Talvez tenha sido este detalhe – ou esta falta de detalhes - que garantiu-lhe a sanidade e a presenteou com “uma vida normal”.
Agora, no entanto, um turbilhão de velhas memórias abandonou raivosamente as profundezas do esquecimento e projetou-se sobre ela com mais força do que conseguia suportar: a face de um menino encharcada de lágrimas e desfigurada pelo pranto, a maleta e o relógio.
Ela despertou de susto, ofegante e com olhos de surpresa. Precisava anotar, avançou em seu diário e escreveu compulsivamente.

3 comentários:

L. F. Volkweis Filho disse...

Fantástico!

minimus disse...

ô.. belo conto..

Gabi disse...

adorei!! maravilhoso!!